ESCLARECENDO DÚVIDAS EM RELAÇÃO AO DÍZIMO – CHRISTOPHER WALKER (1)

Falar sobre dízimo não é tão simples quanto possa parecer. Apesar de ser uma das práticas mais universais em todas as denominações linha e correntes do cristianismo atual, é também um dos nossos maiores estigmas em relação aos que olham de fora.

Não que seja um consenso absoluto. Aproveitando-se do fato de que o Novo Testamento quase nem faz menção do dízimo, algumas vozes têm-se levantado para contestar a prática. E aí envolve uma questão muito mais ampla que a do dízimo: Como aplicar as leis e princípios do Antigo Testamento à Nova Aliança inaugurada por Jesus?

Para ajudar a pensar sobre as principais dúvidas e discussões em torno do dízimo, abordamos a seguir algumas das perguntas mais frequentes. Como sempre nesta publicação, não estamos insinuando que temos respostas definitivas ou infalíveis; pelo contrário, nosso papel é estimular o pensamento honesto e corajoso a respeito de temas importantes para a Igreja, com o objetivo de abrir mais o diálogo e facilitar o nosso retorno coletivo ao “primeiro amor e à prática das primeiras obras (Ap 2.4,5) da Igreja do primeiro século.

DÚVIDA 1

         Se Abraão pagou o dízimo para Melquisedec (Gn14.20; Hb 71-10) antes da introdução da lei de Moisés, isto não mostra que o dízimo é anterior à lei e, consequentemente, uma prática que deve ser mantida na Nova Aliança?

         É uma observação válida dizer que o dízimo é anterior à lei. No entanto, um princípio importante na interpretação das Escrituras é ler a passagem em questão em todo os eu contexto, procurando entender exatamente o que o autor estava querendo transmitir (não tentando tirar dele o que nós queremos provar).No caso do texto em Hebreus 7, fica muito claro que o objetivo do autor não era reforçar a prática do dizimo; era mostrar a superioridade do sacerdócio segundo a ordem de Melquisedeque. E o que Abraão fez naquele incidente não foi iniciar um padrão de pagar regularmente 10% de sua renda, mas apenas oferecer a Melquisedeque, como representante de Deus, uma oferta de gratidão pela vitória divinamente concedida.

Com isso não estamos querendo levantar um argumento contra o dízimo, apenas observar que o texto em Hebreus não foi escrito para dar autenticidade a essa prática. O tema do capítulo e de toda a epístola aos Hebreus é a superioridade da Nova Aliança.

DÚVIDA 2

Quando Jesus repreendeu os fariseus por observarem pequenos detalhes da lei e negligenciarem assuntos muitos mais importantes, ele terminou afirmando que deveriam voltar-se mais à justiça, à misericórdia e à fé, sem deixar de guardar os preceitos “menores”, como dar o dízimo até da hortelã, do endro e do cominho (Mt 23.23; Lc 11.42). Com isso, ele não estava endossando a prática do dízimo na Nova Aliança?

Precisamos lembrar que a Velha Aliança só foi substituída pela Nova coma cruiz (Cl 2.14; Hb 9.15-17). Jesus afirmou que os fariseus não deveriam deixar de guardar as normas do dízimo, assim como ordenou os leprosos a oferecer um sacrifício de purificação no templo (Mt 8.4; Lc 17.14). Ninguém argumentaria que Jesus estava com isso, mantendo o sacrifício de animais na Nova Aliança. Ele estava apenas cumprindo todas as normas da lei até o momento em que a Nova aliança fosse inaugurada por meio da sua morte e ressurreição.

 

DÚVIDA 3

Então, tudo o que faz parte da Velha Aliança foi invalidado pelo Nova? Não temos que guardar nenhum dos mandamentos ou preceitos da lei?

A relação entre o Antigo Testamento e o Novo é bem complexa e causa muitas discussões entre teólogos e estudiosos das Escrituras hoje.

Encontramos no Nova Testamento textos que parecem contraditórios. Por um lado, temos aqueles que afirmam que Jesus não veio anular a lei nem removê-la (Mt 5.17-19; Rm 3.31, dentre outros). A lei (não só a representada pelos Dez Mandamentos, mas também por todos os preceitos e ordenanças no Antigo Testamento) veio para nos revelar quem Deus é. Se a natureza de Deus jamais pode ser alterada, a lei também não.

Por outro lado, A Nova aliança, de fato, trouxe mudanças forte3s em relação à Velha. Muitos texto9s enfatizam que Jesus introduziu uma nova dispensação, diferente da antiga (Jo 1.17). Dentro todos os autores do Novo Testamento, Paulo em especial, expôs cuidadosamente a diferença entre a lei e a graça. “Pois não estais debaixo da lei”, ele afirmou categoricamente em Romanos 6.14, “e, sim, da graça”.

Como conciliar essas declarações opostas? Não estamos debaixo da lei – mas a lei não pode ser anulada, nem em qualquer de seus mínimos requisitos (Mt 5.18,19)! Esse é o nosso dilema!

Uma das explicações mais usadas para solucionar esse impasse é dividir toda a lei do Antigo Testamento em duas partes:

  1. Lei de Deus e
  2. Leis cerimoniais.

A Lei de Deus incluí os Dez Mandamentos e todos os aspectos que tratam da vida moral, do caráter, do relacionamento com Deus. As leis cerimoniais incluem os regulamentos e preceitos sobre rituais, sacrifícios, vestes sacerdotais, moveis do Tabernáculo e aspectos exteriores do culto a Deus. A Lei de Deus permanece para sempre enquanto as leis cerimoniais foram abolidas. Essas última continuam sendo importantes para revelar verdades espirituais e interiores, mas não precisam mais ser observadas. O livro de Hebreus é uma grande dissertação que mostra Jesus como o verdadeiro sacerdote, verdadeiro sacrifício e verdadeira casa de Deus. Com a vida de uma verdadeira aliança, a antiga foi removida (Hb 8.13; 9.8-10; 10.8-9, veja também Ef 2.15 e Cl 2.14).

Essa divisão ajuda bastante, mas não resolve todas as dúvidas. Por exemplo, guardar o sábado é um dos Dez mandamentos. Para alguns, esse mandamento continua em vigor na Nova Aliança, enquanto para outros (a grande maioria dos cristãos) foi abolido juntamente com a aliança antiga. E quanto ao dízimo, onde deve ser encaixado?

Não podemos abordar neste espaço todas as questões relacionadas, mas é muito importante ressaltar que a novidade principal da Nova Aliança é o fato de que a Lei de Deus passou a ser Escrita no interior do homem (Hb 8.10; 10.5-10; 2Co 3.3). Os mandamentos na forma de ordenanças foram cancelados, mas a lei jamais será anulada   porque agora a cumprimos no coração, espontânea e livremente. Devemos ir muito além da obediência exterior e cumprir o espírito da lei, conforme Jesus ensina no Sermão da Montanha (Mt 5. 20-48).

É esse o princípio de ter a lei escrita no coração (pelo poder da ressurreição e do Espírito de vida que habita em nós) que realmente resolve os dilemas e contradições entre a velha aliança e a nova. Tudo o que foi dado ao povo de Israel na dispensação antiga em forma de leis, ordenanças ou rituais foi sombra (Hb 8.5; 10.1) de realidades espirituais, disponíveis a nós agora pela Nova Aliança. Portanto, toda a Velha Aliança é válida até hoje, desde que seja aplicada de forma plena, como realidade interior, e não mais como mandamento exterior.

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