O ESPÍRITO SANTO NO PROCESSO HERMENÊUTICO – PARTE 3

2. O Espírito Santo no Círculo Hermenêutico

Por uma questão de didática e propósito achamos por bem abordar, já no capítulo anterior desse trabalho, a relação do Espírito Santo com a Bíblia e o intérprete numa perspectiva mais teológica. Agora, passaremos a tratar, não somente destes ( Bíblia e intérprete), mas de todos os elementos do círculo hermenêutico numa perspectiva de missão integral, como acreditamos ser o principal objetivo do Espírito Santo no processo hermenêutico.

a. O Espírito Santo e a situação histórica do intérprete

Não se pode negar de forma alguma que todo intérprete, seja como intérprete da Bíblia ou da vida de modo geral, é fruto de sua época, influenciado por todos os fatores e ditames do seu tempo e de seu contexto histórico. No que se refere à Bíblia, em especial, milhares de anos e circunstâncias culturais separam o intérprete das Escrituras Sagradas. O Espírito Santo sabe e compreende estas diferenças. Dá ao intérprete a liberdade de se aproximar da Palavra de Deus com todos os seus pressupostos, embora não lhe dê o direito de fazer com que a Bíblia diga o que ele gostaria que ela dissesse. Repitamos as já citadas palavras de René Padilla:

“O esforço para deixar que as Escrituras falem, sem impor-lhes uma interpretação elaborada de antemão, é uma tarefa hermenêutica obrigatória de todo intérprete, seja qual for sua cultura” (14).

A Bíblia é a voz do Espírito ao povo de Deus. E somente direcionado pelo Espírito, mediante a Palavra, é que o interprete se tornará profeta e portador fiel da mensagem do Espírito Santo de Deus.

b. O Espírito Santo e a cosmovisão do intérprete

Nada melhor do que o próprio intérprete para interpretar a realidade em que vive. Na perspectiva de sua cosmovisão ele pode aplicar os princípios bíblicos à realidade que vê e sente, pois a sua missão não é formular meras doutrinações, mas extrair da Bíblia as aplicações e implicações práticas da sã doutrina para seu povo. A menos que se prejudique o significado original das Escrituras, a cosmovisão do intérprete é válida e sustentada pelo Espírito Santo. A Bíblia não seria o que é, como Palavra de Deus, se não fosse aplicável em todas as épocas por quem vive a vida no seu próprio contexto. “O propósito do processo interpretativo é a transformação do povo de Deus em sua situação concreta” (15).

c. O Espírito Santo e a Bíblia

O Espírito Santo é o mediador do diálogo entre as Escrituras e o contexto histórico contemporâneo. A Bíblia fala hoje porque é a voz do Espírito de Deus. O Deus que falou no passado continua falando hoje em dia a toda a humanidade, através das Escrituras. A mensagem bíblica de transformação do indivíduo e da sociedade, mediante a vocação de homens e mulheres para proclamarem o evangelho de Jesus Cristo aos homens e mulheres do nosso tempo, é a dinâmica do Espírito Santo.

d. O Espírito Santo e a Teologia

O Espírito Santo é a fonte de toda teologia bíblica sadia. E para que uma teologia seja verdadeiramente bíblica, e expresse a mente do Espírito, precisa ser, necessariamente, uma teologia de contexto, como costumava enfatizar Orlando Costas em seus livros e artigos (16). A teologia deve ser o resultado de uma interpretação fiel da Bíblia, pois só assim tocaremos o coração do povo. E esse deve ser o nosso maior objetivo: fazer uma teologia que toque o coração do povo. Uma teologia que atenda os anseios e necessidades do indivíduo e da sociedade. Enfim, uma teologia bíblica contemporânea e contextualizada que nos faça compreender que o Deus transcendente também é o Deus imanente que tem cuidado de nós, em todos os níveis imagináveis.

NOTAS

(1). A. Almeida, Manual de Hermenêutica Sagrada, p. 11.
(2). R. Padilla, A Palavra Interpretada: Reflexões Sobre Hermenêutica Contextualizada,p5
(3). Anotações não publicadas.
(4). R. Padilla, Op. Cit., p. 06.
(5). A Cofissão de Fé de Westminster, I, 9.
(6). L. Berkhof, Princípios de Interpretação Bíblica, p. 56.
(7). L. Berkhof, Manual de Doutrina Cristã, p. 276.
(8). L. Berkhof, op. cit., p. 44.
(9). G.D.Fee & D.Stuart, Entendes O Que Lês?, p. 14.
(10). Para uma discussão interessante sobre o Espírito Santo, a interpretação bíblica e a espiritualidade do crente, veja Moisés Silva, A Função do Espírito Santo na Interpretação Bíblica em Fides Reformata, Vol. II, Nº 2, pp. 89-96.
(11). R. Padilla, Op. Cit., p. 05.
(12). Idem, p. 09.
(13). Schipani, sem nos dar uma justificativa plausível, usa a expressão circulação hermenêutica no lugar de círculo hermenêutico. Ele apenas diz: “O conceito de ‘circulação hermenêutica’ (em lugar de ‘círculo hermenêutico’ como é utilizado por Rudolf Bultmann e Juan Luis Segundo, entre outros) é proposto por Georges Casalis em Las buenas ideas caen del cielo, DEI, San José, 1977”. Nota 18, p. 126.
(14). R. Padilla, Op. Cit., p. 06.
(15). Idem, p. 07.
(16). Veja, por exemplo, Compromiso y Misión de Orlando Costas, Editorial Caribe, 1979 e Misión en el Camino: Ensayos em homenaje a Orlando E. Costas, vários autores, Fraternidade Teológica Latinoamericana, 1992.

BIBLIOGRAFIA

ALMEIDA, A; Manual de Hermenêutica Sagrada, 2ª Edição, CEP, SP, 1985.
BERKHOF, L.; Manual de Doutrina Cristã, LPC, SP, 1986.
___________; Princípios de Interpretação Bíblica, 3ª Edição, Juerp, RJ, 1985.
COOK, G. & Outros; Misión en el Camino: Ensayos en Homenaje a Orlando E. Costas, Fraternidade Teológica Latinoamericana, Argentina, 1992.
COSTAS, O.E.; Compromiso y Misión, Editorial Caribe, Costa Rica, 1979.
FEE G.D. & Stuart D.; Entendes O Que Lês?, Vida Nova, SP, 1984.
MARRA, C.A.B. (ed.); A Confissão de Fé de Westminster, 3ª Edição, Cultura Cristã, SP, 1997.
MATOS, A.S., Lopes, A.N. (eds); Fides Reformata, Publicação do Seminário Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição, SP, Vol. II, Nº 2, 1997.
PADILLA, C.R.; A Palavra Interpretada: Reflexões Sobre Hermenêutica Contextualizada, ABUB, Curso de Obreiros, 1980.
_____________; El Círculo Hermenêutico, Artigo não publicado.
RADEMACHER, E.D. & Preus, R.D. (eds.); Hermeneutcs, Inerrancy and the Bible, Zondervan, Grand Rapids, 1984.

Josivaldo de França Pereira é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil,
bacharel em teologia pelo Seminário Presbiteriano Rev. José manoel da Conceição – SP,
licenciado em filosofia pela FAI (Faculdades Associadas Ipiranga) – SP e
mestrando em missiologia pela Faculdade Teológica Sul Americana de Londrina – PR.




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