O ESPIRITO SANTO NO PROCESSO HERMENÊUTICO – PARTE 2

II. O ESPÍRITO SANTO, A BÍBLIA E O INTÉRPRETE

2.1. O Espírito Santo e a Bíblia

“Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, afim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2 Tm 3.16,17).

“Sabendo, primeiramente, isto, que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana, entretanto homens [santos] falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo” (2 Pe 1.20,21).

As passagens bíblicas que transcrevemos acima, assim como tantas outras que poderiam ser acrescentadas a elas, mostram que a Bíblia tem um autor principal. “Ela é, em todas as suas partes, produção do Espírito Santo” (6).

Durante a história da Igreja, surgiram conceitos diversos quanto a relação existente entre o Espírito Santo e a Bíblia. Os pelagianos e racionalistas sustentavam que a operação intelectual e moral da Bíblia era suficiente para produzir a salvação, independentemente do Espírito Santo. Os antinomianos, por outro lado, ensinavam que o Espírito Santo fazia tudo, independente da Palavra de Deus. A igreja evangélica, por sua vez, sempre sustentou o seguinte: A Bíblia sozinha não é suficiente para salvar, e embora o Espírito Santo possa, geralmente Ele não atua sem ela.

Isto não significa que o Espírito seja subserviente à Palavra de Deus, mas sim, que a soberania divina estabeleceu a livre atuação do Espírito mediante a Palavra. “Na aplicação da obra da redenção os dois trabalham juntos, o Espírito usando a Palavra como Seu instrumento. A prédica da Palavra não produz o fruto desejado até que se torne eficaz pelo Espírito Santo” (7). A verdade é que o Espírito Santo honra a Bíblia, fala pela Bíblia e é reconhecido pela Sua harmonia com ela. Por isso, os reformadores freqüentemente se referiam às Escrituras como “a imagem do Espírito”.

2.2. O Espírito Santo e o Intérprete

Desde os tempos bíblicos Deus levantou profetas e intérpretes da lei que conduzissem Seu povo segundo os princípios estabelecidos em Sua Palavra. No capítulo 8 do livro de Neemias vemos vários servos de Deus que juntamente com os levitas “ensinavam o povo na lei” (v7). E mais: “Leram no Livro, na lei de Deus, claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia” (v8). No capítulo 8 de Atos nos deparamos com a clássica passagem de Filipe e o eunuco.

O alto oficial de Candace, rainha dos etíopes, estava lendo o livro do profeta Isaías. Até certo ponto podemos admitir que ele entendia o que estava lendo. Compreendia que o profeta falava de grandes padecimentos e extrema humilhação que um servo do Senhor teria sofrido ou iria sofrer. Faltava-lhe, no entanto, entender o essencial para a clareza da profecia: a respeito de que servo o profeta se referia.

Falava de si mesmo ou de algum outro? “Então Filipe explicou; e, começando por esta passagem da Escritura, anunciou-lhe Jesus” (v35). E não poderíamos nos esquecer do Senhor Jesus, quando no caminho de Emaús diz a dois de seus discípulos: “Porventura não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lc 24.26,27).

Mas a atuação do Espírito, em capacitar os intérpretes da Bíblia, não se limitou a eles. Deus tem levantado nos dias de hoje homens e mulheres, verdadeiros mestres da exposição bíblica, para orientarem a Sua Igreja. As divergências teológicas e de interpretação sempre serão evidentes entre eles, até porque iluminação não é inspiração, no sentido bíblico daquela “influência sobrenatural exercida pelo Espírito Santo sobre os escritores sacros, em virtude da qual seus escritos conseguem veracidade divina, e constituem suficiente e infalível regra de fé e prática” (8). Mas o direito de interpretação não se restringe aos mestres e doutores. O mesmo Espírito capacita os mais simples para compreenderem o sentido das Escrituras com muita propriedade e coerência.

Particularmente tenho sido enriquecido em meu ministério pastoral por irmãos e irmãs que, não tendo formação teológica alguma mas conhecendo muito bem o seu Deus, lançam luz sobre passagens bíblicas como eu nunca havia pensado antes. E muitos desses irmãos e irmãs são originais em seus conceitos. Contudo, não quero dizer com isso que o alvo da boa interpretação seja a originalidade. O alvo da boa interpretação é, segundo Gordon D. Fee e Douglas Stuart, chegar ao “sentido claro do texto” (9).

Para isso, é fundamental que recorramos aos auxílios internos da própria Bíblia para interpretarmos corretamente o pensamento de Deus mediante os autores secundários, e aos auxílios externos disponíveis para a interpretação gramatical do texto bíblico, tais como: gramática, dicionários, concordâncias, léxicos, analíticos e comentários. É preciso que os comentários ocupem, quando muito, o último lugar em nossas pesquisas, visto que um comentário é sempre uma opinião e não a última palavra de quem quer que seja. III. O ESPÍRITO SANTO NO PROCESSO HERMENÊUTICO

3.1. O Espírito Santo e a Ciência Hermenêutica

Certamente o Espírito Santo pode atuar independente de meios, como já mencionamos. Entretanto, o Espírito age, geralmente, com e através da Palavra de Deus. E de que modo Ele o faz? De um lado, através da iluminação do entendimento do intérprete; de outro, na condução do uso correto das ferramentas hermenêuticas por parte do intérprete. O Espírito Santo não milita contra qualquer instrumento que nos ajude a compreender o sentido das Escrituras; pelo contrário, como acabamos de afirmar, Ele mesmo se utiliza da hermenêutica para nos auxiliar no modo correto de interpretar a Bíblia. A própria Bíblia apresenta muitos exemplos dessa natureza.

Em muitos casos, os autores investigaram de antemão a matéria a respeito da qual pretendiam escrever. Lucas nos diz no prefácio do seu Evangelho que procedeu deste modo; e os autores dos livros dos Reis e Crônicas se referem constantemente às suas fontes. Além disso, os autores do Novo Testamento em várias ocasiões interpretaram as profecias do Antigo Testamento como se cumprindo em ocasiões específicas. Como chegavam a essas conclusões? Naturalmente com os recursos da hermenêutica. O apóstolo Pedro criticou aqueles que, por falta de uma hermenêutica sadia, deturpavam os ensinamentos de Paulo e das demais Escrituras “para a própria perdição deles” (2 Pe 3.15,16).

Com certeza, nos tempos bíblicos os escritores e profetas sagrados não conheciam a hermenêutica como nós a conhecemos hoje, isto é, como ciência e arte de interpretação da Bíblia, mas nem por isso eles eram menos favorecidos, pelo contrário, possuíam a inspiração do Espírito Santo que os habilitava a escrever e interpretar a Escritura Sagrada sem nenhuma margem de erro. Isto não quer dizer que estivessem livres do fracasso de entender a própria mensagem.

O fato de os profetas algumas vezes fracassarem em entender a mensagem que eles mesmos traziam ao povo, serve também para demonstrar que aquela mensagem vinha de fora, de Deus, e que, portanto, não partia da vontade pessoal deles. Daniel, por exemplo, certa vez teve uma visão e logo em seguida declarou que não entendia o significado daquilo tudo (Dn 12.8,9). Zacarias, por sua vez, teve várias visões com mensagens para o povo, mas precisou que um anjo o auxiliasse na interpretação delas (Zc 1.9; 2.3; 4.4). Pedro nos informa que os profetas que apresentavam a mensagem a respeito dos sofrimentos e glórias de Cristo, com freqüência investigaram os detalhes disso, para poder entender com mais clareza (I Pe 1.10,11).

Não devemos nos esquecer que o ato de fazer lembrar e entender a vontade de Deus para a nossa vida é atribuição do Espírito Santo. Como vimos, Ele atuou no passado na mente e no coração de homens e mulheres de Deus e hoje o faz iluminando nosso entendimento para entendermos o que a Bíblia diz, com suas aplicações práticas para a vida diária.

E mesmo que em certas ocasiões o Espírito Santo nos faça compreender o sentido das Escrituras independente de pesquisa prévia, via de regra este não é o modo corriqueiro dele agir. O Espírito de Deus nos orienta através dos recursos da hermenêutica. Por isso mesmo, a uma pesquisa diligente no intuito de entender o que se lê, deve-se unir a oração como expressão de uma vida dependente do Espírito (10). E assim, como dizia Lutero, oremos como se tudo dependesse de Deus e trabalhemos como se tudo dependesse de nós mesmos.

3.2. O Espírito Santo e o Círculo Hermenêutico

1. O Círculo Hermenêutico

Esta última parte do nosso trabalho (O Espírito Santo e o Círculo Hermenêutico) é o resultado natural de tudo que vimos até aqui. É a aplicação prática do Espírito Santo no processo hermenêutico dentro do chamado círculo hermenêutico. O que é o círculo hermenêutico? Como poderíamos representá-lo e defini-lo?

Graficamente podemos representar o círculo hermenêutico desse modo:

Embora os estudiosos não neguem a importância do Espírito Santo no círculo hermenêutico, poucos enfatizam a centralidade Dele. René Padilla, por exemplo, diz que “a iluminação do Espírito é indispensável no processo interpretativo” (11) e que é “urgente a necessidade de uma leitura do Evangelho desde cada situação histórica particular, debaixo da direção do Espírito Santo” (12). Entretanto, quando Padilla representa graficamente o círculo hermenêutico omite a pessoa do Espírito. Esta omissão também é evidente no artigo de Daniel S. Schipani (Crezcamos en todo … en Cristo em Misión en el Camino, p. 127) (13).

Um dos ensaios, dentre os que encontrei, que abordam com mais ênfase a pessoa do Espírito Santo no círculo hermenêutico é The Role of the Holy Spirit in the Hermeneutic Process: The Relatioship of the Spirit’s Ilumination to Biblical Interpretation do Dr. Fred H. Klooster em Hermeneutcs, Inerrancy and the Bible, pp. 451-472.

Nosso objetivo neste capítulo é tentar apresentar , de maneira prática, o relacionamento do Espírito Santo no círculo hermenêutico, visto que Padilla e Schipani não dizem quase nada sobre o Espírito e Klooster, apesar de falar muito sobre o Espírito Santo no processo hermenêutico, não vai além do campo teórico e da teologia. E agora, uma vez que o Espírito Santo está no círculo, ligado aos quatro elementos hermenêuticos e vice-versa, podemos definir o círculo hermenêutico como aquela interligação mútua e dinâmica na perspectiva que devemos ter (como intérpretes que devemos ser) da Bíblia e da realidade histórica sob a ótica e direção do Espírito Santo de Deus.

Em outras palavras, a perspectiva que se tem de um elemento do círculo hermenêutico afeta a perspectiva que se tem do outro. A compreensão da Bíblia, a compreensão do contexto histórico e a compreensão do Espírito Santo, na perspectiva do intérprete, devem estar integradas mutuamente e não podem ser separadas. A interpretação de um incide na interpretação do outro, até porque neste caso o fator diálogo passa a ser, de certa forma, o segredo do sucesso do círculo hermenêutico. O círculo hermenêutico segue, então, uma dupla direção, em que não somente o intérprete e o texto (como sugere Padilla, op. cit., p. 08), mas todas as partes dele estão em constante diálogo.

Como o Espírito Santo se relaciona com os quatro elementos do círculo hermenêutico? Façamos, então, uma breve análise do papel do Espírito Santo na dinâmica do círculo hermenêutico, a fim de entendermos com mais clareza o significado desse processo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s