O Espírito Santo no Processo Hermenêutico – Parte 1 – Pr. Josivaldo de França

Introdução:

O presente artigo é uma tentativa de se analisar o papel do Espírito Santo no processo hermenêutico e a sua relação com os outros elementos do chamado círculo hermenêutico. Nós o dividimos em três capítulos principais, sendo que somente o último deles trata diretamente do Espírito Santo no processo hermenêutico. Acreditamos que esta disposição será necessária porque os dois primeiros capítulos servirão de pano de fundo ao tema. Sendo assim, procuramos definir a hermenêutica e seu propósito, a relação entre o Espírito Santo, a Bíblia e o intérprete e, por último, o papel do Espírito Santo na ciência hermenêutica e no círculo hermenêutico.

Quanto ao Espírito Santo no círculo hermenêutico, propriamente dito, abordamos a questão no conceito de missão integral numa teologia de contexto. Como, numa teologia de contexto, se relaciona o Espírito com os quatro elementos do círculo hermenêutico? O Espírito deveria ou não ser representado graficamente com os outros elementos do círculo? Como definir o Espírito Santo no círculo hermenêutico? Esperamos responder a contento a estas e outras perguntas semelhantes. Nossa pesquisa não é exaustiva mas esperamos que atenda o propósito para o qual foi escrita; a saber, valorizar a importância e centralidade do Espírito Santo no processo hermenêutico.

“No estudo da Bíblia, não é bastante que entendamos o sentido de autores secundários (Moisés, Isaías, Paulo, João); temos que entender a mente do Espírito” (Louis Berkhof).

I. Definição e Propósito da Hermenêutica

1.1. Definição de Hermenêutica

“Hermenêutica” é uma palavra de origem grega. Platão (c. 427-347 a.C.) foi o primeiro a utilizá-la como termo técnico. No sentido amplo do termo, a hermenêutica pode ser definida como a ciência que nos ensina os princípios, as leis e os métodos de interpretação de qualquer produção literária. Antônio Almeida diz que hermenêutica é “a ciência e a arte de interpretar. É ciência porque postula princípios seguros e imutáveis; é arte porque estabelece regras práticas”(1).

Especificamente falando, a hermenêutica sacra tem caráter muito especial, porque trata de um livro peculiar no campo da literatura – a Bíblia como inspirada Palavra de Deus. E somente quando reconhecemos o princípio ativo da pessoa do Espírito Santo na inspiração da Bíblia, e por Ele somos guiados na compreensão da mesma, é que podemos conservar o caráter doutrinário e prático da hermenêutica bíblica.

1.2. O Propósito da Hermenêutica

Em geral, estuda-se hermenêutica com o propósito de interpretar produções literárias do passado. Sua tarefa principal é indicar o meio pelo qual possam ser removidas as diferenças ou distâncias entre um autor e seus leitores. A hermenêutica nos ensina que isso só se realiza satisfatoriamente quando os leitores se transpõem ao tempo e ao espírito do autor para, por exemplo, analisar as características pessoais do autor, as circunstâncias sociais do mesmo e as circunstâncias peculiares aos escritos.

Na hermenêutica sacra o ponto de partida é a própria Bíblia, uma vez que ela mesma é o objeto de pesquisa da hermenêutica. O propósito da hermenêutica sacra é “transportar a mensagem bíblica, a partir do seu contexto original, a uma situação histórica contemporânea” (2).

Infelizmente, boa parte dos estudiosos bíblicos partem da metodologia para a Bíblia. Primeiro formulam suas conclusões pessoais e depois vão aplicá-las à interpretação das Escrituras, ao invés de deixar que a Bíblia formule as regras para sua própria interpretação. Valdir Steurnagel, por exemplo, entende que “nós podemos ter as duas coisas. Teologia de baixo e teologia de cima” (3). Entretanto, Padilla observa corretamente:

“O esforço para deixar que as Escrituras falem, sem impor-lhes uma interpretação elaborada de antemão, é uma tarefa hermenêutica obrigatória de todo intérprete, seja qual for sua cultura” (4).

Um dos princípios defendidos pelos reformadores do século XVI era que a Scriptura Scripturae interpres. Um século depois da Reforma Protestante, este princípio foi apreciado e elaborado pela Assembléia de Westminster do seguinte modo:

“A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente” (5).

Na verdade é quase que impossível nos aproximarmos da Bíblia sem pressuposições variadas, herança herdada de diversas influências (sociais, culturais, teológicas, etc.). Os reformadores, por exemplo, não foram os primeiros e nem seriam os últimos a negarem, entre eles mesmos, o princípio de que a Escritura interpreta a si mesma. Dentre outras coisas, temos o exemplo clássico dos conceitos teológicos de Lutero, Zuínglio e Calvino em relação à Ceia do Senhor.

Além disso, Calvino, muito mais centrado no método histórico-gramatical de interpretação bíblica, não estava livre de alegorizações, como é o caso de sua interpretação do Salmo 133. Contudo, todas as pressuposições, sejam as nossas ou sejam as deles, não são e nem podem ser justificadas pela Bíblia. Por isso, afim de que as Escrituras possam ser estudadas com o mínimo de coerência, é preciso interpretá-las gramática, histórica e teologicamente de mente e coração abertos para ouvirmos com humildade e disposição a voz do Espírito Santo de Deus.

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